Manuel S. era vidraceiro. Ana B. , professora de posturas. Durante anos passaram na mesma rua às 6 da tarde. Ela seguia pelo passeio, olhava de relance a grande montra do salão de chá, virava na transversal à esquerda e desaparecia no fundo da rua. Manuel seguia atrás, via-avirar à esquerda e continuava em frente entrando num prédio ao fundo da rua numa escola de coaching onde aprendia a liderar.
Não falaram nunca até ao dia, quatro anos volvidos, em que ele ao entrar na rua agradeceu o caminhar perfeito da professora.
"Apresentam-me um texto. Esse texto me enfara. Dir-se-ia que ele tagarela. A tagarelice do texto é apenas essa espuma de linguagem que se forma sob o efeito de uma simples necessidade de escritura. Não estamos aqui na perversão, mas na procura. Escrevendo o seu texto, o escrevente adopta uma linguagem de criança de peito: imperativa, automática"..
Apanhei a linha do Oeste e fui até à Figueira. Convenci uns amigos que me levaram ao longo da costa. Passei por Buarcos, Tocha e só parei em Ílhavo já muito para norte.
Nem sinais da Micaela, do tenente, nem de Rodrigues. Não havia ninguém que os conhecesse ou que deles se lembrasse, ainda que os confundissem com outros. Eram figuras que podíamos ter sido nós. Outros que são virtualmente as janelas de uma época. Personagens que existem para nos reconhecermos e para sermos outros. A virtualidade absoluta, com a qual podemos sobreviver nos outros e os outros em nós.
"....será que alguém é arrastado, salvo em casos muito excepcionais, para alguma coisa que, no fundo, não quisesse fazer, vencidas as repugnâncias que o defendiam?
-Não.
-Não o quê?
-Um mal é uma coisa exterior a nós, contra a qual a gente luta.
-E não é uma coisa interior de que a gente tenha de defender-se?"
Jorge Cândido de Sena nasceu em 2 de Novembro de 1919 em Lisboa. Terminou em 1936 o seu curso de liceu, ano em que se inscreveu nos preparatórios para a Escola Naval . Formou-se em Engenharia Civil na FEUP. Até 1959 foi funcionário da Junta Autónoma de Estradas, data em que se exila no Brasil, onde conclui o doutoramento em letras e rege as cadeiras de teoria da literatura e literatura portuguesa na Universidade de Araquara. A partir de 1965 passa a viver nos E.U.A. acompanhado da esposa Mécia de Sena, de quem teve 9 filhos, sendo professor catedrático na Universidade de Winsconsin e, posteriormente na Universidade da Califórnia - Sta. Bárbara, onde dirigiu o departamento de literatura portuguesa e espanhola. Recebeu ao longo da sua vida vários prémios, entre eles a Grã-Cruz de Santiago. Faleceu em 4 de Junho de 1978. Três dias depois, a Assembleia da República exprimia pesar unânime, certamente partilhado por todos os que tiveram a honra de o conhecer a si ou à sua obra. Uma das suas filhas, já em Lisboa, ainda me deu aulas de inglês com um sotaque inesquecível da West Coast Californiana.
Jorge, personagem cimeira das letras portuguesas, anda um pouco esquecido pelos leitores.
Texto partido da Wikipédia e aumentado pelo Bordel.
Tertúlia de Linguarudos no seu melhor! Os amigos são mesmo o que de melhor temos para alegrar a vida. E há de tudo. Até as moscas do senhor já parecem uma miragem. Que esta ilha é um balão com bom coração. E há cocos, e há estórias. E há memórias. De hoje. De amanhã. De sempre.
"O mundo, aquele mundo compreensível e legal, ia-se desvanecendo. Antes havia isto e aquilo, e agora ...o navio tinha partido." Substituímos aquele mundo pelo nosso mundo, onde a precária segurança do Estado democrático caminha para estado caótico e sem direitos e em que a fina malha cristalina e frágil da democracia que cobria o nossa cultura de humanismo liberal cede lugar a um barbarismo liberal, e temos o mesmo medo presente
sexta-feira, 22 de junho de 2012
"Simão sente uma perigosa necessidade de falar, mas, para ele, falar perante um auditório era uma coisa tremenda. - Talvez - arrisca ele com um modo hesitante -, talvez haja uma fera. (...) - O que eu quero dizer é que... se calhar somos nós."
Pergunta de um Doutor numa escola de economicas e financeiras:
Quando um pobre nos quer lamber as botas, devemos ou não untá-las previamente?
Resposta certa: Deve untá-las, mas... o produto não pode ser muito salubre pois não deve o pobre rebustecer e decidir deixar de ser pobre e atrair um número excessivo de pobres à lambedela e se aumentar muito a quantidade de lambedores a paciência do lambido diminui bastante. O produto deve ser moderadamente salubre, até porque a moderação é a principal qualidade a exigir a um pobre.
Baseado em A Noite e o Riso de Nuno Bragança (livro muito baseado)
Este poema para quem é praticante desde o tempo da Torre da Gadanha e para todos os outros que se juntaram, bem podia estar no tal livro mal amado e em epigrafe.
Dei com ele por acaso não fosse ele um nobelizado.
Farto de todos aqueles que com palavras fazem palavras mas onde não há uma linguagem; Dirigi-me para a ilha coberta de neve. A veação não conhece palavras. As páginas em branco dispersam-se em todas as direcções. Eu dei com vestígios de cascos de corça na neve.Linguagem, mas nenhuma palavra.
Thomas Transtormer
sábado, 5 de maio de 2012
“(…) on one end a large shining map, marked with all the colours of a rainbow. There was a vast amount of red – good to see at any time, because one knows that some real work is done in there, a deuce of a lot of blue, a little green, smears of orange, and, on the East Coast, a purple patch, to show where the jolly pioneers of progress drink the jolly lager-beer. However, I wasn’t going into any of these. I was going into the yellow. Dead in the centre. And the river was there – fascinating – deadly – like a snake. Ough!” (Joseph Conrad, in Heart of Darkness)
Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto. despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.
"O fascismo é uma bebida reconfortante para quem está enregelado até aos ossos, um gole rápido poderá parecer um bom remédio. Infelizmente ainda não conseguimos fazer a mais pequena ideia do que significou a guerra mundial. As suas origens mantêm-se mergulhadas na névoa mais densa"